27 de março de 2017

Entrevista com André Massaro, palestrante, professor e escritor

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Hoje é um dia muito especial para mim e para o blog Finanças Forever, pois na seção Blogueiros Notáveis estarei conversando com André Massaro. Atualmente é educador financeiro, escritor, professor, palestrante e conferencista especializado em finanças e economia.

 Entrevista com André Massaro

Autor dos livros “MoneyFit” e “Por dentro da bolsa de valores” (Matrix Editora). Colaborador e articulista dos mais importantes veículos de mídia do Brasil, como Jornal Nacional, Veja, Exame, Você S.A. entre outros.

Autor do blog “Você e o Dinheiro” no Portal EXAME. Instrutor sênior da MoneyFit, empresa especializada em educação financeira, e criador do jogo de planejamento financeiro “Balanço Positivo”.
André é professor do Instituto Educacional BM&FBovespa.

Massaro é profissional da área de finanças a dezoito anos. Graduado em Administração e pós-graduado em Economia, já foi executivo financeiros em algumas empresas e instituições financeiras do país.

moneyFit

 

Acompanhe nosso bate papo >>

Everton: André Massaro, seja bem vindo! Estou honrado. Divirta-se. Primeiramente, peço a gentileza que fale um pouco sobre você mesmo:

André: Olá Everton! Quero começar dizendo que é um grande prazer participar desta sua série de entrevistas. Tenho uma admiração por seu trabalho e acredito que você é um dos grandes talentos em finanças pessoais no Brasil.

Bem, vamos lá… Eu sou um profissional financeiro “de origem”. Me graduei em administração com ênfase em finanças e fiz minha pós-graduação em economia de empresas. Trabalhei praticamente a vida inteira em funções ligadas a finanças, já são quase vinte anos de carreira (estou ficando velho!). Comecei a vida profissional com alguns estágios e depois virei trainee em uma grande empresa de consultoria e auditoria. Considero o treinamento que recebi nessa empresa como a base do conhecimento financeiro que eu tenho hoje. De lá fui trabalhar em instituições financeiras (em diversas funções) e depois com gestão financeira em empresas de outros segmentos. Antes dos trinta anos de idade já tinha posição executiva na área de finanças. Trabalhei também como consultor em diversos projetos ligados a finanças, gestão e desenvolvimento de negócios e, por volta de 2005, tomei a decisão de abandonar o mercado corporativo e virar um “trader” de ativos financeiros em período integral, operando apenas meus próprios recursos.

Por cinco anos segui nessa atividade. Comecei com ações, tentei alguma coisa com opções (sem muito sucesso) e “me encontrei” nos contratos futuros. Participei de vários cursos e seminários de análise técnica e afins, li uma incontável quantidade de livros e acabei desenvolvendo um interesse por trading systems, sistemas de base quantitativa com o objetivo de automatizar a decisão de compra ou venda de ativos financeiros. Durante um bom tempo da minha vida eu vivi em função dos trading systems. Só lia sobre isso, só falava sobre isso, só me relacionava com pessoas que também se interessavam nisso, conhecia todos os softwares e livros disponíveis no mercado (aqui e no exterior), estava virando um vício. Eu vivi de operações na bolsa de valores por cinco anos. Não quebrei (isso já me coloca num clube muito restrito), não ganhei rios de dinheiro, mas consegui viver de forma digna durante todo esse período, porém estava levando um estilo de vida nada saudável. Um dia pretendo falar um pouco mais sobre o quanto meu corpo e minha mente “sofreram” nesse período, mas o fato é que eu precisava parar naquele momento!

Foi quando tomei a decisão de partir para a área de educação financeira. Meu maior objetivo era voltar a ter contato com pessoas “de carne e osso” e fazer alguma coisa com mais significado (eu reconheço a importância do especulador financeiro, mas no meu caso a vida estava ficando um pouco “vazia”). Escrevi o livro MoneyFit (que foi publicado em 2010) e achei que dali em diante a vida seria um “passeio”, pois com todo conhecimento que acumulei na área de finanças corporativas e mercados de capitais, trabalhar com finanças pessoais e educação financeira seria moleza…

Aí veio a minha primeira “lição de humildade”. Descobri, do jeito mais difícil, que quanto se fala em finanças pessoais pelo menos 90% dos problemas não são verdadeiramente “financeiros”, e sim psicológicos, comportamentais ou até mesmo morais. Descobri que todo o conhecimento de finanças que eu acumulei na verdade tinha muito pouco valor. Descobri também (a minha segunda lição de humildade) que, na expressão “educação financeira”, o termo “educação” não vem na frente de “financeira” por acaso. O educador financeiro eficiente precisa ser muito mais “educador” do que “financeiro”. O conhecimento financeiro que a maioria das pessoas precisa para melhorar de vida é o conhecimento básico, não é preciso ser um “PhD em finanças” para ter uma vida feliz e equilibrada. O grande desafio está em motivar as pessoas a colocar esse conhecimento básico em prática, e aí entra o talento e o conhecimento do bom educador.

A maioria dos educadores financeiros são “financistas metidos a educador”. Pessoas que dão muita importância ao conhecimento financeiro, mas entendem pouco de pessoas e não conseguem motivá-las a adotar práticas financeiras mais saudáveis, reforçando a visão de que finanças é um assunto chato e maçante (e, vamos admitir, não é um dos assuntos mais agradáveis que existe).

Eu reconheço que sou um “financista metido a educador”, mas adotei como desafio pessoal mudar isso e, ultimamente, venho investindo pesado na minha própria formação para buscar o equilíbrio perfeito (ou pelo menos o mais próximo possível da perfeição) entre educação e finanças. O conhecimento não tem valor algum se não puder ser aplicado.

Everton: Vamos logo falando sobre a importância da educação financeira na vida das pessoas. Algumas não se dão conta de que há uma diferença enorme entre necessidades e luxuria. Digo isso porque estamos em um momento de IPI e juros baixos. Você poderia listar algumas armadilhas financeiras que possam enganar a população quando o assunto é consumo?

André: Nós vivemos uma situação curiosa hoje. Nossa economia, nos últimos anos, está bastante aquecida (apesar de haver alguns sinais recentes de “cansaço”) e vivemos uma situação de quase “pleno emprego”. Não é uma coisa comum no Brasil, onde o desemprego historicamente é uma preocupação, mas o fato é que as pessoas começaram a ficar “confortáveis” com essa situação, afinal de contas o sujeito perde o emprego hoje a amanhã já consegue outro (principalmente naqueles segmentos onde o salário é mais baixo mas se exige algum nível de especialização).

Para complicar ainda mais, temos o crédito farto, que também é outra “novidade”. O povo brasileiro não foi adequadamente preparado para lidar com a fartura de liquidez. Esses dois fatores (emprego e crédito em alta) geram não um incentivo ao consumo, mas um verdadeiro deslumbramento, um “frenesi consumista” que faz com que as pessoas comprem qualquer porcaria que veem pela frente sem sequer saber o real valor daquilo. O brasileiro médio está se revelando um consumidor imaturo, deslumbrado, que não sabe (e não quer) fazer contas e que não tem a menor noção do valor daquilo que está pagando, contando que “a parcela caiba no bolso”.

Vejo hoje como principais armadilhas as compras por impulso (armadilha financeira “clássica”), o excesso de confiança com os rumos da economia (e do emprego) e o completo desprezo que as pessoas vem mostrando pelo próprio dinheiro, pagando custos financeiros altíssimos para poder ter um bem (muitas vezes supérfluo) “na hora”.

Everton: Além disso, muitos sabem da importância de se manter uma reseva de emergência. Ou seja, um montante de dinheiro, com alta liquidez, para que caso aconteça algo inesperado, como uma gravidez, ou até mesmo desemprego, esse recurso poderá ser utilizado para manter a casa em dia. Você possui alguma estratégia que gostaria de compartilhar conosco quando o assunto é crise ou emergencial?

André: Antes de falar sobre estratégias, gostaria de comentar que a maioria das pessoas não está dando a devida importância a ter uma reserva de emergência. Eu faço palestras em empresas e associações e vejo que a “regra” hoje é não só NÃO TER uma reserva como ter um patrimônio negativo, por conta das dívidas. A pessoa que tem uma reserva é a exceção.

Vejo isso como um reflexo desse excesso de confiança com a economia e com o emprego. Lembro que, no início da minha carreira profissional, era comum ver artigos e entrevistas com profissionais de recursos humanos que recomendavam às pessoas manter uma reserva que as permitisse viver até um ano sem renda, pois esse era o tempo que ela poderia levar para arrumar outro emprego caso perdesse o atual. Quem se preocupa com isso hoje?

Mas voltando às estratégias para ter uma reserva, o primeiro passo é NÃO TER DÍVIDAS. É ilógico a pessoa ter dinheiro na poupança rendendo “uma miséria” e simultaneamente estar devendo no rotativo do cartão de crédito a taxas extorsivas. Isso gera uma falsa sensação de segurança, de que a pessoa “tem dinheiro guardado”, mas é autoenganação.

Considerando que a pessoa tenha suas contas equilibradas e não esteja devendo dinheiro, ela pode seguir a dica de nove entre dez especialistas em finanças pessoais e guardar 10% de sua renda para formar essa reserva. É uma espécie de “dízimo para si mesmo”. O ideal é que possa ser até mais que isso, mas se a pessoa conseguir criar o hábito de separar 10% da renda todo mês, chova ou faça sol, sem desculpas esfarrapadas como “vou gastar este mês e compenso no próximo” (que ela não vai compensar…) já é um grande passo. Esse dinheiro deve ser investido em instrumentos conservadores e de alta liquidez, como títulos de renda fixa.

Everton: O blog é voltado para iniciantes. Procuro sempre das dicas básicas. Tanto nas finanças pessoais como nos investimentos. Você poderia nos indicar livros sobre investimentos voltados para os iniciantes?

André: Hoje o que não faltam são opções de livros de finanças pessoais e investimentos. Eu tenho dois livros publicados (e deverei ter mais alguns em breve) e sei, através de meus contatos em editoras e livrarias que existem muito mais livros do que o mercado tem capacidade de absorver. Há um excesso de títulos.

É difícil hoje criar um livro de finanças realmente “original”. É um grande desafio para autores e editores. Os livros estão começando a ficar repetitivos, até porque o mercado não carece de falta de informação. Muito pelo contrário, há um excesso de informação e uma pouca disposição em colocar essa informação toda para funcionar.

Não quero falar sobre nenhum livro ou ebook específico, pois tem opções muito boas e seria uma injustiça com colegas dedicados que eu acabaria esquecendo de mencionar, então gostaria de dar algumas dicas sobre como escolher um livro de finanças.

A primeira dica é: cuidado com promessas exageradas. Muitos livros se propõem a ensinar “como enriquecer” baseados em premissas furadas e em planos de investimento com retornos absolutamente irrealistas. O mercado financeiro brasileiro está mudando, as taxas de juros estão caindo e a tendência para o futuro é que os retornos diminuam e a volatilidade aumente, por isso a maioria dessas “formulas mágicas” já está obsoleta. Isso para não falar em livros que beiram a mais pura e descarada picaretagem, mas esses em geral são fáceis de identificar pela veemência com que prometem resultados rápidos e espantosos.

A segunda dica é: evite livros irrelevantes. Existem muitos livros que se prepõem a “desmistificar o mercado financeiro” e que, na verdade, não passam de “manuais” que procuram explicar, de forma simplificada, conceitos básicos de finanças e produtos financeiros. Existem “zilhões” de blogs, sites e ebooks que dão esse tipo de informação DE GRAÇA, e muitas vezes com altíssimo padrão de qualidade (você está neste momento em um deles, por acaso…). Pessoas realmente preocupadas com suas finanças devem dar valor ao seu dinheiro e procurar não pagar por algo que podem ter de graça (contanto, claro, que isso não implique em fazer coisas ilegais como pirataria), por isso esse tipo de livro de pouca relevância deve ser evitado.

Everton: Parece que a crise de 2008 não termina nunca. Pois, desde então a economia mundial não conseguiu se estabilizar e muito menos voltar a patamares de antes desta data. Inclusive os governantes (leia-se a Presidente Dilma) já comentou que o Brasil não é uma ilha e que a crise afeta sim o nosso país. Qual a sua visão sobre o mercado financeiro atual?

André: Tem uma frase atribuída ao famoso jogador e técnico de beisebol americano Yogi Berra que diz que “é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”. É complicado falar sobre economia em um nível “macro” sem cair na tentação da futurologia. Existem muitos economistas e analistas metidos a “videntes” que vez por outra acabam quebrando a cara e, acredite, vidência não é uma das minhas especialidades.

Mas o cenário externo é bastante assustador e eu fico surpreso em ver como o Brasil conseguiu se segurar até o momento sem sofrer grandes consequências. Porém um cenário de “tempestade perfeita”, como previsto pelo economista Noriel Roubini (um desses “videntes”, que ficou célebre por antecipar o estouro da bolha do subprime em 2008) é algo bastante plausível. Ele diz que quatro eventos combinados (desaceleração dos EUA, agravamento da crise na zona do Euro, desaceleração das economias emergentes, em particular da China e uma guerra contra o Irã) poderiam lançar o mundo em uma recessão nunca vista antes. Certamente o Brasil não vai conseguir passar incólume se uma situação assim se concretizar.

Pode ser que nada disso aconteça. Pode ser inclusive que a economia mundial volte a crescer e esse cenário atual de incerteza seja simplesmente esquecido. Mas seja como for, acho que as pessoas não perdem nada se começarem a adotar uma postura mais equilibrada e “defensiva” em relação ao dinheiro.

Everton: E pra finalizar a nossa conversa de forma clássica, peço que, por favor deixe uma mensagem para os leitores desse blog.

André: Diferentemente de alguns educadores financeiros, eu não condeno o consumo (inclusive o consumo conspícuo). Acredito firmemente que as pessoas devem buscar na vida aquilo que as fazem felizes. Quer levar uma vida simples e frugal? Faça-o. Quer adquirir muitas coisas, consumir muito e buscar status? Faça-o, a economia agradece. Por trás de cada bem aparentemente supérfluo existem pessoas trabalhando e que precisam daquilo para sustentar suas famílias. Por isso não devemos julgar o padrão de consumo alheio e nem bancar os “moralistas financeiros”.

Querer aumentar o padrão de vida é um objetivo nobre e legítimo. Podemos e devemos querer melhorar de vida, mas devemos basear esse aumento do padrão de vida em aumento da renda, e não aumento do endividamento. E um dos caminhos para aumentar a renda é nos tornarmos profissionais melhores e pessoas melhores.

O aumento do padrão de vida baseado em endividamento não traz felicidade, traz escravidão.

Abraços,

André.

Everton: Gostaria de agradecer fortemente a sua atenção perante minha pessoa. E parabenizá-lo pelo seu trabalho junto com outros colegas como educadores financeiros. E pra quem usa o Twitter quero indicar que sigam o André Massaro (@andremassaro) por lá, onde sempre encontramos excelentes links, com conteúdos de primeiríssima qualidade, twittando e compartilhando com a gente. Com extrema dedicação, abrangendo temas correlacionados com finanças e investimentos. Parabéns André Massaro pelo seu trabalho.

Abraços,

Everton. 

 

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